“#2”: o segundo capítulo

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Não sei como, mas eu consegui acordar na minha cama na manhã seguinte. Toda dolorida, talvez pelo sono agitado, mas acordei. Devia ser aquele anjinho que me protegia sempre, sabe? E acordei, “droga! Atrasada”. Pulei da cama, com o sonho da última noite martelando na minha mente. Tomei um banho rápido, engoli o café e sai apressada para o trabalho. Já no carro, selecionei as minhas músicas preferidas e no caminho para a redação, fui repensando a minha vida nestes últimos quinze anos.

Entrei no colégio que meu pai e meus tios haviam estudado e tinha muito orgulho por isso. Definitivamente foi uma das melhores coisas que me aconteceram: lá, pude conhecer as pessoas mais importantes da minha vida que eu conservo até hoje, como uma segunda família e me fez também passar os meus melhores anos.

Dei risada, sozinha, relembrando todos os momentos engraçados que passei por lá. Foram tantos choros, tantas risadas, tantas confidências. Depois disso veio a faculdade. Chopadas, trabalhos, outros amigos que irei levar pra vida toda também. E nesse ínterim veio ‘aquela noite’.

Sempre tive a pretensão de escrever e viver disso, só não sabia que minha carreira no jornalismo ia chegar até esse ponto em tão pouco tempo. Atualmente, eu sou a editora de cultura de umas das principais revistas femininas do país, a ‘La Belle’. Foi lá o meu primeiro e único estágio. Me identifiquei de primeira com o ambiente e desde então só fiz crescer na empresa. Nas horas vagas, seguia fazendo a segunda coisa que mais amava: montava a cavalo.

Não sei se inconscientemente era uma forma que eu achei de me deixar mais próxima do Caio. Já fazia um pouco mais de quatro anos que ele tinha ido embora. Desde aquela noite eu não contava o tempo. Não percebi que com as lembranças reavivadas, eu cheguei ao trabalho. Incrível que quando você se conecta ao passado, o tempo voa. Quando sentei na minha mesa, abri a minha caixa de entrada e havia a resposta do Fred, me confirmando na competição. Eu tentei ignorar a resposta dele durante toda a noite, mas foi em vão: na minha frente constava a confirmação da minha inscrição. Peguei meu celular da bolsa e disquei para o Fred, que atendeu ao segundo toque.

– Alô?

– É sério mesmo que a cidade é essa? – perguntei com falsa esperança.

-Claro que é, não te falei ontem e no e-mail que te mandei?

– É que sei lá, tive esperanças que a cidade houvesse mudado. Tudo bem, mais tarde a gente se fala. Tenho muito que fazer.

Obviamente, não consegui fazer mais nada. Essa competição me tirava dos nervos. Não a competição em si, mas a cidade em que ela iria ser realizada. Meu melhor amigo havia se formado no ano seguinte e seguido a mesma carreira que o Caio, mas eu o proibi de comentar qualquer coisa. Não fui eu que tinha ido embora? Então, que arcasse com as consequências. Nem sei se eles já tinham se visto depois disso. Provavelmente sim, pois eles tinham muitos amigos em comum. Com o meu pedido de não me contar nenhuma informação, ele não iria me contar nada agora. Imediatamente mandei um torpedo para o Léo contando as últimas notícias bombásticas. Ao fim do dia, chegando em casa, fui tentar me organizar para viajar dali a quinze dias. A semana prometia ser longa.

Sexta-feira à noite:

‘Tem certeza de que você quer fazer isso?’ A frase da mensagem de texto na qual o meu amigo Léo tinha me respondido estava me martelando a semana inteira. Respondi com um:

‘Eu preciso fazer isso. Espantar os meus fantasmas.’

A porta do táxi bateu atrás de mim, me fazendo voltar ao presente.

– Moça, suas malas! – gentilmente o motorista me ofereceu.

– Obrigada, respondi sem graça por estar distraída. Ele deve ter me achado uma tola, aposto.

Coloquei a bagagem no carrinho e fiz um sinal da cruz. Estava entrando no aeroporto.

Seja o que Deus quiser, ouvi meu coração dizer.

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O primeiro capítulo do meu livro!

Recolhi depressa a minha roupa que estava toda espalhada pelo chão do quarto do hotel. Aquela noite, sem dúvida, foi a melhor da minha vida. Da dele também, tinha certeza. Ele tinha conseguido se formar. “Finalmente”, pensei. Depois de longos anos, o meu menino era um homem. Uma lágrima desceu e um misto de orgulho e tristeza se abateu sobre mim. Eu não poderia ficar. Não haveria futuro para nós. Mesmo que os dois quisessem.

“Maldita tequila, deveria já saber que ela não me faz nada bem. Sempre consigo fazer alguma besteira quando eu a bebo!” pensei alto, no banheiro enquanto tentava me refazer. “Ele foi incrivelmente maravilhoso essa noite, em todos os sentidos.”, refleti relembrando os detalhes. “E essa cara quando tá dormindo então? De que o mundo não oferece perigo, que é tudo calmo, fácil.”

Sentada na poltrona que ficava de frente para a cama, enquanto calçava o sapato em silêncio, fiquei o observando, concluindo que sim, eu estava apaixonada pelo Caio. Perdidamente.

“E agora?” – eu estava em um dilema! Coloquei a mão na minha cabeça, tentando pensar rapidamente. “Ficar ou ir embora?” Eu tenho que sair antes que ele acorde e a gente fique com cara de bobo olhando um para o outro. Não posso ficar mais nem um minuto aqui. Mesmo que ele me odeie, eu tenho que ir. E fui. Sem olhar pra trás, sem um bilhete ou explicação. O sutil barulho da porta fechando se confundiu ao meu coração se despedaçando.

Alguns anos depois:

Abri correndo a porta de casa, pois o telefone estava tocando. Para variar, estava toda atrapalhada, cheia de coisas para segurar. Era bolsa, chave de casa, chave do carro, sacola de supermercado. Haja equilíbrio! Isso era tão eu…Foi só colocar o pé pra dentro do apartamento recém-comprado que o barulho da ligação parou. Com sorte, quem quer que fosse ligaria de novo. E foi o que aconteceu.

– Droga! – disse largando tudo no corredor de entrada e correndo para ver se conseguia atender a ligação.

– Alô ?? – respondi com a respiração bem ofegante.

Era Fred, meu amigo que falou impaciente do outro lado da linha.

– Mas que demora !! O que houve? Tenho boas notícias, tenho certeza de que você vai adorar!

– Jura? – pronunciei já com um sorriso nos lábios.

-Você vai competir! Em Athena.

Gelei. Congelei. Estatelei no sofá vermelho, única coisa que tinha na minha sala de estar. Morava há um pouco mais de um mês no meu primeiro apartamento, não tinha tido muito tempo de decorar. Suspirei fundo e respondi ao Fred, meu amigo-técnico-faz tudo em relação ao quesito hipismo na minha vida.

-Fred, querido. Depois você me liga pra dar detalhes. Pode ser? Acabei de chegar do trabalho, a revista tá com o deadline bem apertado e estou exausta. Ou sei lá, me manda tudo por e-mail que ai eu leio e te respondo, pode ser?

– Tudo bem, vou enviar tudo agora então. Me liga se tiver dúvidas depois de ler tudo.

Assim que desliguei, sentei lentamente no meu sofá confortável. Atônita. Perplexa. Tirei meu sapato e fui tomar um banho para ver se relaxava. Não consegui, é claro. Guardei as compras no armário e na geladeira como uma forma de adiar o inevitável: Ver o e-mail e ligar para o Fred.

A fome sumiu completamente, as borboletas insistiam em fazer um show no meu estômago. Para não dormir de barriga vazia, preparei um chá de morango e me sentei no sofá.

Sabe, eu finalmente estava num emprego ótimo e ganhava muito bem, morava sozinha, tinha minha independência financeira e tinha realizado o meu sonho: de aprender a montar a cavalo, me revelando tão boa que acabei adotando isso como um esporte a ponto de competir algumas vezes.

Esse sempre foi o meu maior desejo, acho que desde a minha infância quando eu via o meu tio caçula montar. Só fui conseguir quando adulta, de tanto o Caio insistir. Era essa uma das muitas coisas que nós dois amávamos e passávamos horas conversando.

Descobri então, acho que graças a insistência dele durante os nossos papos que eu tinha mesmo jeito para isso. Cavalos. Eu sempre fui louca por eles, assistia sempre que podia a filmes, documentários, lia livros, assim como era louca pela minha verdadeira profissão: o Jornalismo.

Peguei meu laptop de cima da mesa e fui direto na minha caixa de entrada checar o tal do e-mail. Foi inútil não me recordar dele. E o meu pensamento voou pra longe. Meu corpo estremeceu. Uma coisa louca. Lembrei que alguma semana depois daquela noite, ele foi morar justamente em Athena. Não teve como eu não associar a cidade a ele. As perguntas começaram a pipocar na minha mente enquanto eu lia o programa da competição.

“E agora, como é que ele está? Será que ele ainda morava por lá? Será que tinha namorada, noiva, esposa? Filhos” Afastei esse pensamento e me concentrei no que estava lendo.

Não tinha a mínima noção do que havia acontecido com ele, eu preferi cortar qualquer laço depois de tudo o que aconteceu. Algo me dizia que nossas vidas estavam pra se cruzar novamente. Depois de responder ao Fred, deitei e adormeci por ali mesmo. E sonhei com ele. Como uma volta ao passado…